<F+>

<T+247>

<hist. 8 s. cap. 4>

<72>

Captulo 4



  A Repblica Velha (1889-1930) foi um perodo de grandes 

instabilidade poltica. A difcil situao econmica dos 

pobres e a insatisfao com o domnio das oligarquias geraram 

vrios movimentos populares.



Rebelies na Repblica Velha



  Estudamos as comunidades camponesas do Contestado (SC) e 

Canudos (BA), os cangaceiros e a atuao do padre Ccero (CE). 

Conheceremos as revoltas da Vacina e da Chibata. E veremos uma 

nova classe social, o proletariado industrial, organizando 

greves e sindicatos, influenciados por anarquistas e 

comunistas.

  Nos anos 20, jovens oficiais do exrcito lideraram revoltas 

em quartis contra o domnio das oligarquias. Foi o chamado 

movimento tenentista, que gerou a clebre Coluna Prestes.



<73>

Acomodados?



  Voc acredita que um povo possa ser oprimido a ponto de 

passar fome e mesmo assim no se empenhar em transformar a 

sociedade? Voc conhece algum que diga que {o povo brasileiro 

sempre foi muito acomodado}? E voc concorda com essa idia?

  Neste captulo, ns estudaremos inmeras manifestaes de 

rebeldia social e poltica dos brasileiros durante a Repblica 

Velha. Camponeses, marinheiros, operrios, jovens oficiais do 

Exrcito, cada grupo social tinha seus prprios motivos para 

se rebelar.



A situao social



  Como voc se lembra, na Repblica Velha o poder poltico 

estava nas mos das oligarquias estaduais. Homens poderosos, 

com muitas terras, muito dinheiro, muito prestgio. Mas a 

situao econmica do pas no era boa. Inflao, aumento de 


impostos, que da dos preos internacionais do caf incomodavam 

a sociedade brasileira.

  Os governantes preocupavam-se em ajudar os fazendeiros, em 

estimular o desenvolvimento da agricultura. Os principais 

beneficiados eram os cafeicultores. A populao mais pobre 

recebia pouca ou nenhuma ateno. Durante quase toda a 

Repblica Velha no houve, por exemplo, uma nica lei de 

proteo aos trabalhadores.



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*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Figura: mulher com vrias     o

  ferramentas nas mos, ergui-     o

  das sobre sua cabea. Ilus-     o

  trao anarquista de 1924. A   o

  revoluo social dos traba-      o

  lhadores derrota a opresso      o

  capitalista.                     o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



<P>

Latifundirios e camponeses



  A maioria dos brasileiros vivia no campo. Geralmente, o 

campons trabalhava nas terras de um latifundirio. O 

fazendeiro pouco investia na produo. A agricultura brasileira 

era tecnologicamente atrasada. Quase nenhuma fazenda utilizava 

mquinas agrcolas ou adubos industriais. Todo o esforo da 

produo era do campons. Ele  que abria uma rocinha de fumo, 

feijo, cana, milho ou algodo, criava os porcos, o cabrito e 

as galinhas. Depois, tinha de entregar metade da colheita para 

o fazendeiro. Era a chamada _meia. Alm disso, o caboclo tinha 

a obrigao de trabalhar de graa para o dono da terra durante 

alguns dias da semana (era a obrigao chamada de _cambo).

  A rocinha do caboclo no utilizava mquinas nem tecnologia. 

Por isso, a produo era limitada. Como ele ficava s com a 

metade do pouquinho que produzia (a outra metade era entregue 

ao latifundirio), o resultado acabava sendo a fome, as 

crianas doentes, o desespero. Para o fazendeiro, ao contrrio, 

havia fartura: ele ficava com a metade da produo total de 

todas as famlias camponesas.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Figura mostrando a produo   o

  e diviso dos produtos que       o

  era feita entre camponeses       o

  e o fazendeiro. {Parceria de-   o

  sigual. No sistema de meia o    o

  fazendeiro ficava com metade     o

  da produo dos camponeses.}     o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



<74>

Canudos



  Na Repblica Velha, aconteceram dois movimentos camponeses 

muito importantes: Canudos e Contestado. Ambos foram destrudos 

com violncia pelas autoridades a mando dos latifundirios.

<P>

  _Canudos era uma comunidade pobre no serto da Bahia, no fim 

do sculo Xix. Ocupava uma rea de terra sem dono. As pessoas 

foram ocupando o lugar lentamente, construindo uma casinha ali, 

um galinheiro acol, uma lojinha por perto... at que surgiu 

uma cidade de 30 mil habitantes.

  O lder da comunidade de Canudos era o pregador religioso 

Antnio Conselheiro. Ele afirmava que o Messias (Deus) logo 

iria voltar  Terra e queimar os homens maus em fogo e enxofre. 

E quem eram os {homens maus}? Para aquelas pessoas, a {maldade} 

estava nos poderosos coronis e nos novos governantes da 

Repblica, que ignoravam o sofrimento do povo e permitiam a 

criao de novos impostos para os pobres pagarem. Os {bons}, 

claro, eram aqueles que viviam na comunidade.



<P>

<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto: A aldeia de Canudos   o

  como foi vista na poca. As     o

  igrejas testemunham a reli-      o

  giosidade dos moradores. Note   o

  o aglomerado de pequenas ca-     o

  sas (cerca de 5.200). Ela fi-  o

  cava numa rea abandonada do     o

  serto baiano, as margens do     o

  rio Vaza-Barris. Os habitan-  o

  tes viviam do que era produ-     o

  zido pela prpria comunidade:    o

  plantavam milho, mandioca,       o

  feijo, cana, criavam gali-      o

  nhas e cabras, produziam         o

  queijo.                          o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



  Canudos comeou a incomodar os poderosos. Os coronis se 

irritavam com os sertanejos, que pareciam viver com autonomia. 

A Igreja no aceitava que houvesse um homem fazendo pregao 

religiosa por conta prpria. Os homens do governo comearam a 

se preocupar quando receberam notcias de que Antnio 

Conselheiro fazia discursos contra a Repblica e a favor da 

monarquia.

  A mudana do regime no tinha transformado em quase nada a 

vida dos sertanejos. Eles continuavam abandonados pelo governo. 

Pior ainda: o novo regime republicano permitiu a criao de 

novos impostos. D para entender as crticas de Antnio 

Conselheiro  Repblica.  claro que canudos no era um 

movimento de luta pelo retorno  monarquia. Mas foi dessa 

maneira que as autoridades da capital interpretaram o 

movimento.  bom lembrarmos que a Repblica no tinha 

completado ainda dez anos de existncia, e muitos republicanos 

temiam a queda do regime. O preo desse medo iria ser pago 

pelos homens e pelas mulheres do distante serto da Bahia.

<75>

<P>

  O pior veio a seguir. Em nome da defesa da Repblica contra 

{os fanticos manipulados pelos monarquistas}, o presidente 

enviou expedies militares contra Canudos. Os camponeses se 

defenderam com astcia, utilizando tticas de guerrilha. 

Derrotaram trs expedies militares seguidas! Mas na quarta 

expedio chegaram milhares de soldados do exrcito comandados 

por dois generais. Os camponeses nada puderam fazer contra uma 

fora militar gigantesca que contava at com canhes Krupp, 

importados da Alemanha. Depois de trs meses de combate, 

Canudos foi derrotada. Todos os bravos defensores tinham cado 

em combate. Os latifundirios podiam dormir em paz...



<P>

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*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto mostra alguns habitan-   o

  tes de Canudos aprisionados     o

  pelo exrcito antes do assal-    o

  to final contra o arraial.       o

  Nenhum defensor sobreviveu.     o

  Canudos tinha desafiado os      o

  coronis da Bahia e assustou    o

  o governo republicano no dis-    o

  tante Rio de Janeiro. Eucli-  o

  des da Cunha procurou expli-    o

  car a rebelio social-reli-      o

  giosa que {compreendia me-       o

  lhor a vida pelo incompreen-     o

  dido dos milagres}.              o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



A reportagem que queria ser cientfica



  Euclides da Cunha (1866-1909) era reprter e estava l em 

Canudos quando as coisas aconteceram. No livro _Os _sertes, 

procurou fazer uma descrio {cientfica} do que foi a 

comunidade liderada por Antnio Conselheiro. Mas a sociologia 

era uma cincia que ainda estava nascendo. Assim, Euclides da 

Cunha, que tambm era engenheiro, misturou observaes 

perspicazes com preconceitos. Para ele, o motivo para as 

pessoas terem organizado Canudos estava no clima semi-rido do 

serto e na {raa} do caboclo nordestino. Mas ele tambm 

conseguiu ver coisas importantes como a misria do campons e 

a violncia das autoridades.

  Livro monumental, _Os _sertes foi escrito numa linguagem 

to rica e variada que  considerado uma das maiores obras da 

literatura brasileira.



Revolta no Contestado



  _Contestado foi um movimento campons que aconteceu em Santa 

Catarina. No comeo do sculo Xx, a regio foi ocupada por 

empresas que exploravam madeira e por uma companhia 

norte-americana que construa uma estrada de ferro. Todas elas 

invadiam as terrinhas dos camponeses e os expulsavam da regio. 

A Serraria Lumber tinha sua prpria guarda particular, impondo 

com violncia a vontade da empresa na regio.

  Os camponeses montaram um acampamento em Taquaruu, uma rea 

no interior catarinense. Liderados pelo {monge} Jos Maria, 

acreditavam que em breve Cristo retornaria para auxili-los 

contra os poderosos que roubavam terras dos pequenos. 

Confiantes na proteo de Deus, trataram de atacar os 

agressores. Arrancaram trilhos e incendiaram galpes de 

serrarias.

  O presidente da Repblica tomou conhecimento do conflito e 

escolheu um lado: o das empresas capitalistas. Um exrcito foi 

enviado para a regio e, em 1915, o contestado estava 

submetido. At mesmo a aviao militar foi utilizada. No final, 

milhares de camponeses tinham sido massacrados.



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*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto: casas de colonos      o

  alemes em Santa Catarina.   o

  Na regio do contestado, as   o

  habitaes eram bem mais       o

  humildes.                      o

eieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



<76>

Cangaceiros e coronis no serto nordestino 



  Menino pobre, analfabeto, mora com os pais num barraco de pau 

e lama seca. Um dia, o coronel avisa que quer aquele pedao de 

terra para criar gado. O pai se recusa a ceder a terra, porque 

a roa  garantia da sobrevivncia no serto. Desafia o 

latifundirio. Ento chegam os jagunos do coronel e fuzilam o 

pai e a me do garoto. O menino foge dali. Nunca esquecer 

aquela cena. Mais tarde, se junta a um bando de pessoas com um 

passado semelhante: misria, violncia, dio dos coronis. 

Tornou-se um _cangaceiro.

  Desde o final do sculo Xix at os anos 40, havia muitos 

bandos de cangaceiros no interior do Nordeste. Atacavam 

fazendas e pequenas cidades para roubar. O cangaceiro mais 

famoso foi Virgulino Ferreira da Silva, de apelido _Lampio.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

     Foto: Lampio com Maria Bo-  o

  nita  frente de seu bando de       o

  cangaceiros. Bandido ou heri?     o

  Na poca, aterrorizava fazen-      o

  deiros e cidadezinhas do inte-      o

  rior do Nordeste. Mas, para       o

  muitos, ficou como o {justi-        o

  ceiro da caatinga}. Teria sido     o

  mesmo? At que ponto ele no       o

  esteve plenamente integrado        o

  violenta disputa entre as fam-     o

  lias rivais dos coronis? Seu      o

  objetivo de agir no era o          o

  modo possvel de no se             o

  sujeitar completamente?             o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



  Os cangaceiros eram bandidos terrveis. Roubaram, torturavam 

e matavam. Mas os jagunos dos coronis e a prpria polcia 

eram igualmente violentos. Os coronis mandavam matar os 

membros das famlias de coronis rivais. A polcia espancava, 

tomava dinheiro e assassinava as pessoas comuns.

  Portanto, os cangaceiros no contestavam os valores da 

sociedade rural nordestina. Eram violentos porque aquela 

sociedade era violenta. Na verdade, os cangaceiros no 

contestavam nem mesmo o coronelismo. Os chefes cangaceiros 

montavam alianas com os coronis do serto. Um coronel 

protegia o bando de Lampio, por exemplo, porque os cangaceiros 

atacavam as fazendas de outras famlias de coronis.

  Os mais importantes cangaceiros comearam a existir no final 

do sculo Xix. Mas por volta de 1940, j no tempo de Getlio 

Vargas, o cangao praticamente deixou de existir. Um dos 

motivos de seu desaparecimento foi a perseguio policial 

implacvel, fruto do reforo da autoridade do estado.

  Hoje em dia, muitas pessoas do interior do Nordeste (e at do 

resto do Brasil) tm uma imagem positiva dos cangaceiros. No 

viveram a poca do cangao, mas ouviram dos pais e dos avs ou 

leram em cordis as histrias que contam as faanhas do 

passado. Por que os cangaceiros so hoje lembrados como 

{heris}? No  fcil explicar. Mas o fato de terem sido 

pessoas de origem humilde que no se curvavam diante dos 

poderosos, a divulgao da lenda de que {roubavam dos ricos 

para dar aos pobres} (na verdade, isso s acontecia em raras 

ocasies) e a prpria vida que eles levavam, de aventuras, 

certamente contriburam para que fossem celebrados na memria 

popular.



<77>

<P>

Santos e coronis



  No mesmo Cear, onde havia tantos cangaceiros, atuou o 

{Padim} _padre _Ccero (1844-1934). Foi um personagem histrico 

contraditrio. Padre Ccero era, por um lado, uma pessoa 

preocupada com os pobres. Construa orfanatos, pequenas 

enfermarias e escolas. Mas onde  que conseguia dinheiro para 

essas obras assistenciais? Pedia aos coronis e ao governo 

estadual. Os poderosos aceitavam dar certas contribuies para 

o padre contanto que ele orientasse os fiis nas eleies... Ou 

seja, era o velho esquema de troca de favores por votos. O 

padre Ccero estava integrado ao jogo de poder dos coronis. 

Certa vez chegou a mobilizar milhares de sertanejos para que 

defendessem o poder poltico do governador Acioly, 

representante de oligarquia que dominava o estado do Cear!



<P>

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*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Foto: enfeite de porcelana   o

  do {Padim} Ccero, at hoje   o

  venerado como {santo} no        o

  Nordeste.                      o

eieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



  Na memria do povo, ele ficou sendo lembrado como um homem 

bom, que ajudava os pobres. Mas at que ponto a pobreza no era 

resultado do domnio dos coronis que ele ajudava a manter? 

(Como a histria apresenta contradies!)



A Revolta da Vacina (1904)



  {Os padres que se danem! Eles no podem impedir o progresso 

da cidade!} Com esse tipo de pensamento, o prefeito Pereira 

Passos iniciou as reformas urbanas do Rio de Janeiro no comeo 

do sculo Xx. A mentalidade positivista valorizava a 

modernidade. E o modelo da modernidade era Paris. Portanto, a 

capital do Brasil seria moderna quando ficasse parecida com  a 

capital francesa.

  O prefeito Pereira Passos ordenou a abertura de largas 

avenidas no centro da cidade. S que, para alargar as ruas, era 

preciso derrubar as casas. O problema  que essas casas eram 

habitadas por pessoas pobres. Mas o governo no se preocupou e 

manteve a demolio. A opo dos moradores, ento, foi subir os 


morros, onde havia barracos desde a abolio da escravatura.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Foto: a avenida Central em    o

  1910, pouco depois do alarga-    o

  mento promovido pelo prefeito     o

  Pereira Passos. Para as auto-  o

  ridades brasileiras, a cidade     o

  moderna deveria seguir o mo-      o

  delo de Paris. Ao lado, ca-     o

  ricatura de Oswaldo Cruz.       o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



<P>

  Em seguida, Pereira Passos encomendou ao mdico Oswaldo Cruz 

um plano de saneamento. Para acabar com doenas como a febre 

amarela, a varola e a peste bubnica. A idia era boa, mas o 

governo quis fazer tudo autoritariamente, sem esclarecer a 

populao. Resolveu que todos deveriam se vacinar contra a 

varola. Naquela poca, a vacina era uma novidade para muita 

gente, e as pessoas tiveram medo. O que fez o governo? Em vez 

de esclarecer a populao, estabeleceu a _vacinao 

_obrigatria. Com polcia e tudo. Agulha e revlver unidos 

contra o povo.

  No dia marcado para o incio da vacinao, a multido foi 

para a rua, derrubou os bondes, arrancou os trilhos, montou 

barricadas (pilhas de entulhos para bloquear a rua impedindo a 

passagem das tropas). O quebra-quebra se espalhou por vrios 

bairros pobres da cidade. As tropas da polcia tiveram de ser 

reforadas. Depois de muitos combates, houve mortes e centenas 

de prises. Um dos capturados, famoso capoeirista, disse a um 

jornal: {Essas coisas so boas para o governo saber que a 

negada no  carneiro, no}.



Marinha de guerra contra a chibata



  No incio do sculo Xx, a marinha de guerra do Brasil ainda 

tinha costumes do tempo da escravido. Se um marinheiro 

cometesse uma falta, como no lavar direito o convs, por 

exemplo, o oficial poderia castig-lo com chibatadas. Era 

aviltante! Depois dessa, no  preciso nem falar do horror que 

era o soldo (salrio), das baratas nos alojamentos, do prato 

de comida intragvel, do servio militar obrigatrio de trs 

anos.

  O governo resolveu ento _modernizar a marinha. E o que 

significa {modernizar}? Seria acabar com as chicotadas? De 

jeito nenhum! Modernizar era comprar navios de guerra de ltima 

gerao, encomendados em estaleiros ingleses. Canhes novos, 

mas chicotes tradicionais.

  Diante desse quadro opressor, os marinheiros se amotinaram 

(se rebelaram contra os comandantes). Assumiram o comando dos 

navios e ameaaram bombardear os bairros elegantes do Rio, caso 

no fossem ouvidos. Na liderana, o cabo Joo Cndido, o 

_Almirante _Negro. O governo foi obrigado a negociar.

  Assim acabaram as chibatadas nos marinheiros do Brasil. Mais 

tarde, eles foram trados e expulsos da marinha. Muitos foram 

jogados na cadeia e alguns at fuzilados. Mas os castigos 

corporais foram para sempre eliminados da nossa marinha.



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*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Foto: marinheiros em um    o

  navio. Contra a humilhante   o

  chibata, amotinaram-se os     o

  bravos marinheiros.           o

eieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



<P>

A situao da classe trabalhadora



  Vimos no captulo 2 que, durante a Repblica Velha 

(1889-1930), apareceram muitas fbricas no Brasil. Com elas, 

nascia uma nova classe social na sociedade brasileira. Estamos 

falando do _proletariado, do trabalhador assalariado, 

principalmente do operrio das indstrias. (veja o grfico a 

seguir.)

  Voc se lembra de como era horrvel ser operrio no comeo 

da Revoluo Industrial europia? Na Repblica Velha no era 

muito diferente. O operrio brasileiro da poca quase no tinha 

direitos. Eram comuns jornadas de dez, doze e at quatorze 

horas de trabalho por dia, de segunda a sbado! Sem direito a 

frias nem aposentadoria. Quando o operrio perdia o emprego, 

sobrevivia  custa da ajuda dos filhos e dos amigos. Alis, as 

crianas tambm trabalhavam. Um absurdo, no? Em vez de 

brincar e estudar, as crianas pobres ficavam horas se 

arrebentando numa fbrica imunda. At mesmo mulheres grvidas 

podiam ser encontradas numa indstria! Com tanto trabalho e sem 

condies de segurana, os acidentes eram comuns. Operrios 

perdiam o dedo, o olho, o brao e eram despedidos sem direito a 

nada, devorados e vomitados pela mquina capitalista.

<79>

  Os salrios dos operrios eram muito baixos. Muitas vezes, no 

final do ms, no havia dinheiro para a comida, e a vinha a 

fome e o choro das crianas. O tipo comum de moradia era o 

cortio: a famlia inteira morava num nico quarto alugado, com 

banheiro coletivo.

  Obviamente, o outro lado disso era a riqueza da burguesia. Os 

donos das fbricas maiores construam manses de trs andares, 

passeavam na Europa, esbanjavam fortunas com festas e jias. A 

desigualdade social que j existia no campo passou a existir na 

cidade industrializada.



<P>

Poucos e ativos



  Populao do Brasil distribuda por atividades -- 1920



  Primrio :o 70%

  Secundrio :o 13%

  Tercirio :o 17%



  De cada cem brasileiros, setenta estavam no setor primrio da 

economia, ou seja, trabalhavam no campo, em minas ou com a 

pesca. Apenas treze em cada cem brasileiros moravam na cidade e 

trabalhavam em indstrias. Cerca de 17% estavam no setor 

tercirio, que  o setor de servios: comrcio, bancos, 

transportes, etc. Portanto, o proletariado industrial era pouco 

numeroso quando comparado ao restante dos trabalhadores do 

Brasil.



<P>

As lutas de classe do proletariado



  Diante dessa situao, os trabalhadores no podiam esperar 

muita coisa nem dos patres nem dos governos. O proletariado s 

podia contar com ele mesmo. Sua fora estava na unio e na 

capacidade de luta.

  Uma forma de luta operria utilizada no mundo inteiro  a 

_greve. Os trabalhadores param de trabalhar enquanto o patro 

no atender s reivindicaes dos grevistas.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto: multido fazendo uma    o

  passeata. Um novo sujeito na    o

  sociedade brasileira: o pro-     o

  letariado (So Paulo, 1917).  o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



  J no comeo do sculo Xx, aconteceram movimentos em fbricas 

e empresas do Rio de Janeiro, So Paulo, Porto Alegre, Recife e 

Salvador.



<F->

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    Foto: meninos aprendizes no   o

  Esprito Santo (em 1910).     o

  Muitas fbricas exploravam      o

  mo-de-obra infantil. Hoje      o

  em dia  diferente?              o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



  As greves geralmente eram organizadas pelos _sindicatos. Na 

Repblica Velha, foram fundados inmeros sindicatos. Mas no 

era nada fcil organizar um sindicato, promover uma greve. 

Washington Lus, que foi presidente do Brasil de 1926 a 1930, 

cunhou uma frase que ficou famosa: {A questo social  um caso 

de polcia}. Percebeu o que ele quis dizer? Que se os 

trabalhadores estivessem passando fome e fizessem greve ({a 

questo social}), isso deveria ser resolvido pela polcia, que 

baixaria a paulada nos grevistas...

<P>

  O movimento operrio era muito perseguido. Quando o patro 

descobria que um emprego estava organizando uma greve ou 

convidando os companheiros para uma reunio do sindicato, no 

tinha conversa: botava todo mundo no olho da rua. O governo 

tambm era severo com os trabalhadores. Grevistas eram 

considerados criminosos comuns e enviados para a cadeia, 

condenados a trabalhos forados. Se fosse estrangeiro, o 

operrio em poderia ser expulso do Brasil (Lei Adolfo Gordo).

  O anarquismo foi muito importante no Brasil nos trinta 

primeiros anos do sculo Xx. Os anarquistas organizaram os 

primeiros sindicatos e as primeiras greves do Brasil. Por isso, 

eram especialmente visados pela polcia.

<80>

  Os anarquistas brasileiros no lutavam apenas atravs dos 

sindicatos. Eles tambm contriburam para formar uma cultura 

operria bastante crtica. Foram os primeiros a defender a 

alimentao {natural}, a questionar a necessidade de as 

mulheres se casarem virgens e de obedecer ao marido. Havia 

teatros anarquistas onde se representavam peas alegres e com 

crtica social. Escreviam seus prprios jornais porque no 

acreditavam na {imprensa burguesa} (os grandes jornais), que, 

para eles, mentia sobre o movimento operrio. Os anarquistas 

preferiam suas prprias escolas. Primeiro, porque quase no 

havia escolas para os filhos dos trabalhadores. Na Repblica 

Velha, aprender a ler e a escrever ainda era quase um luxo. 

Segundo, porque os anarquistas no confiavam na {escola 

burguesa} (a escola tradicional), que, para eles, s servia 

para transformar as pessoas em {carneiros submissos} ao governo 

e aos patres. D para entender o motivo de os anarquistas 

tambm serem chamados do _literrios. (Leia o texto {Nem ptria 

nem patro: os anarquistas no Brasil}.)

<P>

  Em 1917, 1918 e 1919, estouraram greves operrias nas 

principais cidades do Brasil. Greves de dezenas de milhares de 

pessoas que combatiam a carestia (aumento absurdo dos preos), 

os baixos salrios e o excesso de horas de trabalho. Elas 

causaram tanta preocupao s autoridades que o presidente da 

Repblica teve de convocar tropas do Exrcito para acabar com a 

greve. Uma mostra clara de que o governo estava do lado dos 

patres. A velha conversa de que {a questo social  um caso de 

polcia}, Apesar de toda a represso, alguns patres tiveram de 

ceder. Os salrios foram aumentados e reduziram-se as horas de 

trabalho dirias nas fbricas. Vitrias do proletariado que os 

empresrios tiveram de reconhecer.



<P>

<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto: Elvira Boni, uma mi-  o

  litante literria. Os anar-     o

  quistas defendiam a igualdade    o

  entre homens e mulheres. Note   o

  os jornais operrios pregados    o

  na parede.                       o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



Nem ptria nem patro: os anarquistas no Brasil



  _Anarquismo no tem nada a ver com desordem ou baguna, mas 

com a ausncia de poder. O anarquismo  uma corrente poltica 

que foi criada na Europa no sculo Xix. Os principais 

pensadores e organizadores do movimento anarquista foram os 

russos Baukunin e Kropotkin e o italiano Malatesta.

  Os anarquistas so revolucionrios que odeiam o capitalismo, 

a propriedade privada e o Estado. Querem construir uma 

sociedade em que todos sejam livres e iguais. _Iguais, porque 

a sociedade anarquista seria um tipo de comunismo, sem ricos e 

sem patres, com todos trabalhando em cooperao e dividindo 

tudo entre si. _Livres, porque na nova sociedade no haveria 

chefes, nem essa de um cara mandando nos outros. Uma sociedade 

sem Estado, porque os anarquistas odeiam qualquer forma de 

governo. S aceitam que a sociedade governe a si mesma, sem 

poder acima dela.

  Um exemplo para esclarecer. Imagine que voc v jantar num 

restaurante. Se algum lhe disser o que  que voc deve comer, 

esse algum o estar governando, no  mesmo? Agora, imagine 

que voc mesmo escolha sua pizza. Esse  um caso em que voc se 

autogovernou. Pois , para os anarquistas, o cara que escolhe a 

pizza para voc  o Estado, que sempre vai te oprimir. Do mesmo 

jeito que voc pode escolher sozinha, com todos dialogando, o 

que  melhor para ela. Sem as ordens e o porrete do monstro 

chamado Estado.

<P>

  Os anarquistas contestam toda poltica tradicional. Por isso, 

eles nunca votam. No existe partido poltico anarquista. Os 

anarquistas participam de greves operrias e alguns at admitem 

atos de terrorismo, como incendiar o palcio de um milionrio 

ou de um chefe de polcia.

  Os anarquistas tambm implicavam com as igrejas. Achavam que 

os padres e pastores queriam transformar as pessoas em 

cordeirinhos por que diziam aos fiis que {Deus se alegra com 

os operrios obedientes ao patro e ao governo}.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Desenho anarquista (1927)   o

  atacando os {trs inimigos do   o

  proletariado}: a burguesia,     o

  os militares e o clero.         o

eieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



<81>

<P>

Os comunistas do Brasil



  A revoluo socialista na Rssia (1917) entusiasmou pessoas 

em todo o mundo. No Brasil, no foi diferente. Alguns poucos 

operrios esclarecidos e intelectuais comearam a se interessar 

pela teoria de Marx e Engels e pelas idias de Lnin (releia os 

textos: {O socialismo cientfico de Marx e Engels}, e {Lnin: o 

lder bolchevique}, captulo 3). Queriam aplic-las  realidade 

brasileira.

  Os marxistas diziam que os anarquistas eram bem-intencionados 

na luta contra o capital, mas que na prtica faziam o que a 

burguesia desejava: afastar os trabalhadores da luta poltica. 

Para os seguidores de Marx e Lnin, a principal arma de luta da 

classe trabalhadora  o partido poltico. Mas um partido 

diferente, que se dedique a educar politicamente os 

trabalhadores e a organizar suas lutas econmicas e polticas. 

Um partido que dirija as aes revolucionrias socialistas. Foi 

dentro desse esprito que, na cidade fluminense de Niteri 

(1922), foi fundado o {Partido Comunista do Brasil (PCB)}. 

Entre os fundadores, operrios, artesos, intelectuais e alguns 

ex-anarquistas.

  O PCB procurava seguir a doutrina _marxista-leninista, ou 

seja, o socialismo cientfico de Marx misturado com as idias 

de Lnin e dos bolcheviques. O objetivo dos comunistas, claro, 

era organizar os operrios e camponeses para que fizessem uma 

revoluo que destrusse o capitalismo e construsse no Brasil 

uma sociedade socialista parecida com a que havia na Unio 

Sovitica. Mas eles sabiam que, para tentar esse caminho, 

teriam de aguardar alguns anos, pois o capitalismo brasileiro 

era apenas um beb que engatinhava. Capitalismo fraco 

significava poucas indstrias e pequeno proletariado. E para os 

marxistas-leninistas, a revoluo socialista s seria possvel 

quando o proletariado tivesse fora para destruir a velha 

sociedade burguesa.

  No comeo, o nmero de comunistas brasileiros eram bem 

pequeno. Os anarquistas eram mais influentes no movimento 

operrio. Mesmo assim, o presidente da Repblica proibiu a 

existncia do PCB. Os comunistas tinham de atuar 

clandestinamente. Se um comunista fosse descoberto pela 

polcia, era logo preso.

  Durante muitos anos os comunistas exerceram um papel notvel 

na nossa histria. Por isso, falaremos deles muitas vezes nos 

prximos captulos.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Foto: Intelectuais, estu-     o

  dantes e operrios fundaram       o

  o PCB em 1922. Que sonhos e   o

  pesadelos habitam hoje o          o

  fantasma do comunismo?            o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



<P>

O Estado e a questo social



  Na Repblica Velha, a questo social era _principalmente um 

caso de polcia. Mas, alm da perseguio policial, o governo 

utilizou outras estratgias para controlar o movimento 

operrio. Nos anos 20, por exemplo, comearam a ser aprovadas 

algumas leis sociais. A Lei Eloy Chaves, de 1923, estabelecia a 

aposentadoria para trabalhadores ferrovirios. Com essas leis, 

o governo esperava diminuir os protestos do proletariado.

  Aos poucos, o governo e os empresrios foram reconhecendo a 

existncia dos sindicatos. Em alguns casos, os prprios patres 

e governantes estimulavam a criao de sindicatos! Tratava-se 

dos chamados _sindicatos _amarelos. No eram nem anarquistas 

nem comunistas. Geralmente, estavam influenciados pela Igreja. 

Preferiam aguardar a boa vontade dos patres em vez de lutar 

contra eles. Dedicavam-se mais  assistncia social (ajudar um 

desempregado ou um doente) do que s lutas de classe.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Desenho de jornal revolu-   o

  cionrio brasileiro em 1923   o

  mostra o proletariado como     o

  fora responsvel pela inds-  o

  tria e pela transformao da   o

  sociedade. Repare nos smbo-  o

  los comunistas da foice e do   o

  martelo.                       o

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  Pea ajuda ao professor.  y

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<82>

O tenentismo 



  Na dcada de 20, muitos rapazes patriotas do exrcito estavam 

irritados com o Brasil dominado pelas oligarquias estaduais. 

Resolveram que eles, por conta prpria,  que deveriam mudar o 

pas. Promoveram rebelies em diversos quartis. Os rebeldes 

mais entusiasmados eram os oficiais jovens, em geral tenentes 

(leia o texto {A hierarquia militar}, a seguir). Por isso, os 

historiadores chamam esse movimento de revoltas militares nos 

anos 20 de _tenentismo.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto do hotel Copacabana     o

  Palace no comeo dos anos 20.  o

  Veja como Copacabana ainda     o

  no tinha edifcios e as         o

  ruas eram quase desertas.        o

  Nesse calado marcharam at    o

  a morte os bravos tenentes       o

  do episdio dos Dezoito do      o

  Forte, em 1922.                o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



<P>

  Os {tenentes} odiavam o Brasil dominando pelas oligarquias 

estaduais, pela fraude eleitoral, pelo atraso econmico, pelo 

coronelismo, pela Poltica do Caf com Leite. Para acabar com 

tudo isso, procuraram estimular os militares a se revoltarem e 

a derrubar o governo.

   fcil entender o que eles no queriam: as oligarquias, o 

atraso, a corrupo. Mas qual era a soluo apresentada pelos 

tenente? A  que a coisa complicava, porque eles no tinham um 

projeto bem-definido. Apenas idias vagas de nacionalismo (o 

governo passaria a vigiar as empresas estrangeiras que 

investissem no Brasil), de botar o governo apoiando o 

desenvolvimento da indstria, em vez de se preocupar s com a 

agroexportao. Muitos tenentes nem eram democratas, 

acreditando que a soluo para acabar com o domnio oligrquico 

seria uma ditadura militar.

<P>

  O presidente Artur Bernardes (1922-1926) era especialmente 

odiado. Havia o boato de que ele tinha escrito cartas ofendendo 

os militares. Os tenentes ficaram furiosos. Nenhum deles tinha 

cabea fria para examinar se as supostas cartas de Bernardes 

eram verdadeiras ou no. Exigiam o pescoo dele porque queriam 

a cabea das oligarquias. Foi assim que estourou a primeira 

grande revolta tenentista. Militares do Forte Copacabana, no 

Rio de Janeiro, deram tiros de canho contra alguns quartis. 

Com esse ataque, esperavam obter a adeso de outros militares. 

Mas os tenentes no tinham tantos seguidores assim. Ficaram 

isolados. Diante do fracasso, decidiram sair do quartel e 

caminhar pela rua da praia. Foi a clebre {Marcha dos Dezoito 

do Forte}, em 5 de julho de 1922 (observe que muitas cidades 

tm uma rua com o nome de 5 de Julho). Eram mais ou menos 

dezoito pessoas, a maioria militares. Puxa vida, dezoito caras 

contra as foras militares do governo! Tpico do tenentismo: 

coragem, ousadia, idealismo, fora de vontade... O resultado 

foi que apenas dois escaparam vivos. O restante morreu com 

balas de fuzil e de metralhadora.

  A Revolta dos Dezoito do Forte no deu certo na prtica, mas 

serviu para divulgar as idias dos tenentes. Em todos os 

quartis, havia gente admirada dizendo: {Viu? Esses caras tm 

mesmo peito! Ns devamos nos juntar a eles, porque s assim  

que este pas vai mudar!}. E foi o que aconteceu. Nos anos 

seguintes, cresceu o nmero de adeptos do tenentismo.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto dos militares da Marcha   o

  dos Dezoito do Forte, em 5 de   o

  julho 1922. Note o calado      o

  de Copacabana e a presena do     o

  civil. Pouco depois, quase        o

  todos estariam mortos.             o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



<83>

A marcha guerrilheira da Coluna Prestes



  Apenas dois anos depois da Revolta dos Dezoito do Forte, em 

1924, estouraram novas revoltas em diversas guarnies. Dessa 

vez, com um nmero mais expressivo de militares envolvidos. 

Mesmo assim, o governo levou a melhor. Os rebeldes ento 

fugiram para o interior do Brasil. Naquela poca, at mesmo no 

estado de So Paulo havia florestas virgens. Foi no meio do 

mato que se encontraram as foras tenentistas que fugiam de So 

Paulo e do Rio Grande do Sul. Formaram um pequeno exrcito de 

1.500 homens. No comando militar, um jovem gacho, capito do 

Exrcito, com ideais tenentistas: _Lus _Carlos _Prestes.

<P>

  Fugindo das foras do governo, combatendo com tticas de 

guerrilha, o pequeno grupo recebeu o nome de _Coluna _Prestes. 

De 1924 a 1927, eles percorreram o Brasil de sul a norte. Foram 

25 mil quilmetros de caminhada e mais de cinqenta combates 

vitoriosos! Para que voc tenha uma idia, essa foi, at hoje, 

em termos de distncia percorrida, simplesmente a maior marcha 

guerrilheira de toda a histria humana!



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto dos guerrilheiros da   o

  Coluna Prestes em Foz do    o

  Iguau, 1925. Repare na     o

  presena das mulheres.         o

eieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



  Depois de trs anos de batalhas, os bravos guerrilheiros 

resolveram se exilar em pases como a Bolvia e o Uruguai. 

Prestes ficaria como o smbolo da luta tenentista contra as 

oligarquias. Ganhou o apelido imortal de {Cavaleiro da 

Esperana}.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Mapa da marcha da Coluna    o

  Prestes (1924-1927): foram   o

  vinte e cinco mil quilmetros   o

  de marcha e mais de cinqenta   o

  batalhas sem derrotas.          o

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  Pea ajuda ao professor.  y

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<84>

Getlio, os tenentes e o comunismo



  A Coluna Prestes no venceu, mas o Brasil estava pronto para 

mudar. Em 1929, comearia a pior crise mundial da histria do 

capitalismo, levando muitos cafeicultores brasileiros  runa. 

Em 1930, uma revolta militar acabou com a Repblica velha. 

Getlio Vargas passaria a ser o novo presidente.

<P>

  Nesse momento, os tenentes ficaram divididos. Alguns, com 

idias polticas mais  direita, apoiaram Getlio. Outros 

ficaram contra. Lus Carlos Prestes mais uma vez surpreendeu o 

pas: aderiu s idias socialistas e, depois, ingressou no PCB. 

Para ele o futuro do Brasil no estava nas oligarquias nem na 

burguesia, nos militares ou na classe mdia. O futuro estaria 

na unio dos operrios com os camponeses. Mas estaria mesmo?

  De qualquer modo, ns s compreenderemos a histria do Brasil 

a partir de Getlio Vargas se levarmos em conta o novo problema 

poltico que a elite enfrentava: como controlar o proletariado?



<P>

<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Figura: homem no alto de um   o

  coqueiro que est escrito        o

  comunismo. Caricatura de        o

  1930 satirizando a adeso de    o

  Prestes ao comunismo, vista     o

  com desconfiana at pela es-    o

  querda. Muitos ex-companhei-    o

  ros de Prestes apoiaram Get-  o

  lio Vargas e obtiveram cargos   o

  importantes. Prestes, ao con-   o

  trrio, ficou a vida toda sob    o

  a mira da polcia poltica.      o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



A hierarquia militar



  As Foras Armadas possuem uma hierarquia, isto , so 

organizadas de modo que uns mandem e outros obedeam. 

Importante para manter a disciplina e a eficincia na batalha.

<P>

  No exrcito, a maioria  formada por soldados rasos. Os que 

seguem a carreira militar vo sendo promovidos: de soldado a 

cabo, e da a sargento. Mas nunca podero chegar ao posto de 

general.

  Quem tiver mais escudo comea a carreira cursando a Academia 

Militar, que  uma espcie de faculdade. Formando, sai como 

segundo-tenente. 

  Os oficiais so os que tm posto de tenente para cima. 

Comandaram soldados, cabos e sargentos. Os tenentes e capites 

tm idade entre 20 e 30 e poucos anos. De capito, o oficial 

pode ser promovido s patentes de major, tenente-coronel, 

coronel e general (de brigada, depois de diviso e de 

exrcito). Na poca, ainda era possvel chegar a marechal. 

Percebeu agora porque os tenentes eram jovens oficiais?



<P>

<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Figura: oficial de infanta-   o

  ria do exrcito em 1919.        o

  Aquarela de Wasth Rodrigues   o

  (1922). A espada era tradici-  o

  onal, mas j tinha perdido a     o

  importncia para as armas de     o

  fogo.                            o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



<85>

Texto Complementar



  O professor Leandro Konder  um grande conhecedor da histria 

do marxismo e do socialismo. Apesar de seu gabarito 

intelectual, ele se expressa com uma linguagem clara, didtica 

e bem-humorada. Para ns, um verdadeiro mestre. Vamos ler o 

trecho de um de seus livros, a respeito do movimento operrio 

no Brasil da Repblica Velha:



<P>

  {De 1917 a 1920, houve mais de duzentas greves no Rio de 

Janeiro e em So Paulo. No Rio, o Dia do Trabalho (Primeiro de 

Maio), em 1919, foi comemorado na Praa Mau por uma multido 

de 50 mil pessoas. Lanou-se uma campanha pedindo a limitao 

da jornada de trabalho a oito horas.

  O movimento operrio vivia intensamente aqueles anos e 

discutia muito sobre sua organizao. (...) Os proletrios 

deveriam se organizar num partido? Deveriam participar da vida 

poltico-partidria? Ou seria melhor repelir as imposies 

organizativas da atividade partidria como embustes e 

artimanhas da burguesia, incompatveis com a liberdade do 

povo? (...)

  Em maro de 1922, havia 73 militantes convertidos ao 

leninismo em todo o Brasil dispostos a fundar o novo partido. A 

maioria provinha do anarquismo. (...)

<P>

  Em 1924 h dados que sugerem que no Rio de Janeiro os 

comunistas controlavam 10% dos sindicatos. (...)}.



  (Konder, Leandro. {As idias socialistas no Brasil}. So 

Paulo: Moderna, 1996, pp. 32-35.)



  A partir do que  apresentado pelo autor do texto acima, 

procure responder:



  1. No comeo do sculo Xx, o dia 1 de Maio era comemorado em 

quase todo o mundo como o {Dia da Luta da Classe Trabalhadora}. 

No Brasil da Repblica Velha, o governo reprimia qualquer 

manifestao operria independente nesse dia. Leia o texto 

acima e responda: os trabalhadores brasileiros se intimidavam 

com a represso do governo? Justifique sua resposta.



<P>

  2. No segundo pargrafo do texto (que comea com {O movimento 

operrio vivia...})  assinalada uma polmica no movimento 

operrio da Repblica Velha. Que polmica  essa?



  3. Qual era a principal classe social que os anarquistas e os 

comunistas queriam influenciar?



  4. Quando o PCB foi fundado, em 1922, ele tinha muitos 

adeptos?



  5. Avalie a influncia dos comunistas sobre os sindicatos nos 

anos 20.



<86>

Exercicos de reviso



  1.  correto afirmar que o povo brasileiro sempre foi 

submisso e passivo diante da opresso? D exemplos da Velha 

Repblica que confirmem sua resposta.



<P>

  2. {(...) Apareceu no serto do Norte um indivduo, que se 

diz chamar Antnio Conselheiro e que exerce grande influncia 

no esprito das classes populares. (...).} (Euclides da Cunha. 

_Os _sertes.) Caracterize a Revolta de Canudos, destacando o 

grupo social a que pertenciam os habitantes do arraial, a 

importncia da religio para a comunidade, os principais grupos 

que se colocaram contra Canudos e a atitude tomada pelo 

governo.



  3. Cite duas caractersticas comuns s revoltas de Canudos e 

do Contestado.



  4. {(...) h poucos dias, as picaretas, entoando um hino 

jubiloso, iniciaram os trabalhos (...) (provocando o) gemido 

soturno e lamentoso do Passado, do Atraso (...).} (Olavo 

Bilac.) {(...) a antiga cidade desapareceu e outra surgiu como 

se fosse obtida por uma mutao de teatro. Havia mesmo na 

cousa muito de cenografia. (...).} (Lima Barreto.) Os dois 

escritores interpretaram de maneira diferente as reformas 

modernizadoras no Rio de Janeiro no incio do sculo Xx. Diga 

que reformas eram essas e como se relacionaram com a Revolta 

da Vacina (1904).



  5. {Venho por meio destas linhas pedir para no maltratar a 

guarnio deste navio, que tanto se esfora para traz-lo 

limpo. (...) Ningum  escravo de oficiais e chega de chibata. 

Cuidado.} (Carta de autor desconhecido, deixada para o 

comandante do navio _Bahia, 1910). Diga qual foi o motivo 

principal da Revolta da Chibata.



  6. {(...) devido ao elevado custo de vida e aos miserveis 

salrios (...) centenas de milhares de trabalhadores 

(brasileiros) e suas famlias esto obrigados a comer uma s 

vez por dia. (...)} (Revista {El Trabajador Latino Americano}, 

1928.) {(...) operrios andam sem roupa de baixo, sem meias e 

sem sapatos. (...)} (Jornal {O Trabalhador Grfico}, 

5/12/1928.) Descreva como era a qualidade de vida dos operrios 

brasileiros na Repblica Velha.



  7. {Ns, anarquistas, aspiramos a um regime social em que no 

haja exploradores e explorados e no qual seja restituda  

humanidade a riqueza de origem social. (...) Sendo a poltica 

uma sementeira de ambies (...), ns, anarquistas somos 

antipolticos. (...) As leis s servem a favorecer o privilgio 

dos parasitas sociais. (...) Ns, os Libertrios, queremos uma 

sociedade em que cada um governe a si mesmo, e na qual os meios 

de produo estejam ao alcance de todos os seres humanos. 

(...).} ({Manifesto Anarquista}), 1917 ou 1918.) Quais so as 

principais idias polticas dos anarquistas? Quem trouxe essas 

idias para o Brasil?



  8. Diga qual foi a importncia dos anarquistas para o 

movimento operrio brasileiro.



  9. Qual foi a corrente poltica que orientou a criao do 

PCB -- Partido Comunista do Brasil -- em 1922?



  10. Qual era a crtica que os comunistas faziam aos 

anarquistas?



  11. {(...) governo vai exercendo uma vigilncia policial 

severa, que os operrios precisam compreender.  uma medida 

garantidora da tranqilidade do prprio operariado, que no 

pode, nem h de servir de capa a espritos mal intencionados, 

que se aproveitam de todas as oportunidades para promover a 

agitao. (...).} (Jornal _A _Nao, 17/09/1917.) Qual era o 

tratamento que o governo da Repblica Velha dava aos 

sindicatos, aos anarquistas e aos comunistas?



<87>

  12. {Apelar para o povo, esse infeliz povo sobrecarregado de 

impostos, sem instruo e sem vida (...)? Esse povo, por si s, 

nada poder fazer; mas se  sua frente estiver a sntese deste 

mesmo povo -- o Exrcito brasileiro -- composto por caracteres 

bem formados, com a noo exata do cumprimento do dever (...) 

este povo ter alcanado um nvel bem mais elevado. (...).} 

(Tenente J. Nunes de Carvalho. A Revoluo no Brasil, 1925.) O 

autor do texto pode ser considerado um democrata? Justifique 

sua resposta. Em seguida, caracterize o movimento tenentista 

destacando: quem participava e a quem combatia.



  13. Diga o que foi a Revolta dos Dezoito do Forte em 1922.



  14. Explique o que foi a Coluna Prestes (1924-1927).



  15. Com a Revoluo de 1930, acabou a Repblica Velha. 

Getlio Vargas tornou-se presidente do Brasil. Qual foi a 

atitude dos tenentistas em relao a Vargas?



Reflexes Crticas



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Figura: multido peregrina  o

  para visitar a esttua de      o

  padre Ccero em Juazeiros,   o

  Cear. Para muitas dessas    o

  pessoas, s um milagre pode-   o

  ria melhorar suas vidas. At  o

  que ponto essa crena no      o

  refora a passividade polti-  o

  ca? Acreditando no santo,     o

  elas deixam de acreditar na    o

  sua prpria capacidade de      o

  luta? Ou ser que a f reli-  o

  giosa pode dar nimo para      o

  lutar por transformaes       o

  sociais?                       o

eieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



  1. Na Repblica Velha, a situao desesperada dos pobres 

provocou muitas revoltas populares contra o governo. No Brasil 

de hoje, milhes de pessoas nas cidades e no campo vivem na 

misria. Essas pessoas so submissas ou trs se revoltado? Hoje 

em dia, as formas de protesto e de luta so diferentes do que 

eram h setenta ou oitenta anos?



  2. Muitos pobres so profundamente religiosos. A f religiosa 

dos brasileiros pobres ajuda-os a lutar contra sua situao ou 

serve para que os pobres se acomodem?



  3. As idias anarquistas teriam algo a ensinar aos homens e 

mulheres de hoje?



          ::::::::::o::::::::::
